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Crise política, pandemia, aumento da dívida pública, inflação crescente... Por que o Brasil não implodiu ainda?

 


O investidor internacional e o mundo olham atentos os acontecimentos no Brasil. Estamos passando por momentos difíceis. No campo econômico, tivemos mais uma década perdida com crescimento zero de PIB per capta entre 2010 e 2020. Na saúde, estamos passando por uma catástrofe devido à pandemia fora de controle. A dívida brasileira já se aproxima de 100% do PIB, considerada muito alta para um país emergente. Nos últimos meses, a inflação tem surpreendido negativamente parte dos economistas, pois os níveis altos dos índices inflacionários estão impactando a vida do cidadão. E o cenário político? Bom, conturbado é o mínimo que se pode dizer. Mas, como, apesar de todos esses fatores, o Brasil continua de pé? Como não colapsamos totalmente ainda? A resposta para essa pergunta é: as reservas cambiais do Brasil no valor de USD 343 bilhões.

 

O que são as reservas cambiais?

 

As reservas cambiais são o valor que o país possui no “cofre”, em moeda forte. No caso do Brasil, nossas reservas são em USD (dólares americanos). Para ser mais preciso, em títulos da dívida do governo americano, considerado o ativo livre de risco em essência do mercado internacional.

As reservas são formadas a partir do superavit primário do governo, ou seja, quando se arrecada mais do que se gasta. Parte desse excedente é poupado e convertido nesse colchão financeiro. O acúmulo de reservas se acentuou muito no período conhecido como “boom das commodities”, nos anos 2000. Nesse período, o Brasil, que possui a matriz exportadora de commodities como um dos pilares da economia, se beneficiou muito da forte demanda internacional puxada pelo crescimento acelerado chinês. Foi nesse ciclo econômico que as reservas saltaram de USD 50 bilhões para USD 350 bilhões, um aumento de 600% em aproximadamente seis anos. Desde então o país administra a reserva nesse patamar.

 

Por que as reservas cambiais são tão importantes?

 

O capital acumulado nas reservas é guardado para ser usado em momentos específicos, como crises internacionais, momentos de baixa liquidez no fluxo cambial, intervenções por disfunções na precificação do câmbio, ou seja, momentos extraordinários que exijam ações imediatas. As reservas em moedas fortes são especialmente importantes para os emergentes pois esses players não possuem uma moeda com a mesma credibilidade no cenário internacional como o dólar, por exemplo. Mas, além disso, o motivo que será listado a seguir talvez seja o mais importante para os investidores internacionais: As reservas são uma garantia de que não o país não irá ficar insolvente e continuará arcando com os seus compromissos de pagamentos dos títulos da dívida. O simples fato dessa reserva existir, e ser gorda, indica que um risco de calote é bem menor do que em países que não possuem essa poupança. Essa premissa é válida para países emergentes, mas não necessariamente para países desenvolvidos ou com moeda nacional forte no mercado. Um ótimo exemplo disso é entender que o Brasil possui mais reservas internacionais em dólar do que toda a União Europeia junta. Eles não precisam de reserva em USD pois possuem o EUR como a moeda nacional em boa parte dos países membros do bloco.

 

As reservas são a resposta para todos os problemas nacionais?

Também não é por aí. As reservas só devem ser usadas em momentos singulares e com finalidades específicas, como dito acima. Não devem ser usadas como recurso para pagamento de despesas obrigatórias e gastos recorrentes do governo, pois correm um sério risco de se evaporarem muito rápido. Para manter a confiança do investidor internacional a velha receita de se arrecadar mais do que gastar continua sendo a regra de ouro. Para isso, o controle dos gastos públicos é fundamental para equilibrar as contas.

 

Mas durante a maior crise sanitária dos últimos 100 anos, não seria motivo suficiente para usar a reserva para combater o vírus em várias frentes?

 

Alguns especialistas dizem que sim. Seria um bom momento para usar as reservas cambiais, ou parte dela, como um reforço no caixa para amenizar os males da pandemia, ser mais agressivo na compra de vacinas, e aumentar o recurso para o programa de transferência de renda. Essa não foi a estratégia usada pelo governo e pelo Bacen. O uso das reservas se limitou praticamente a intervenções cambiais para conter o avanço especulativo contra o Real. E, no final, uma pergunta sempre fica no ar: Será que não dava para ter sido feito mais e melhor com todo esse recurso à disposição?  


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