A disfuncionalidade do Real no
mercado internacional está chamando a atenção dos mercados. Frequentemente
vemos nos noticiários que o Real foi a moeda que pior performou no dia em
comparação ao dólar. Se esse pequeno artigo fosse aprofundar todas as questões
que influenciaram essa derrocada da moeda brasileira acabaria se tornando um
livro e ainda sobraria muitos temas para uma segunda edição. De toda forma seria
uma história cheia de vilões e caras maus, mas se eu fosse escolher apenas um
culpado, o líder que está encabeçando essa maldade com o Real, quem seria?[1]
Minha escolha seria a Taxa de Juros do Brasil.
Antes de aprofundar mais nos
pilares cambiais dessa escolha, acredito que seja importante colocar algumas
premissas sobre a dinâmica da taxa básica de juros do Brasil, também chamada de
SELIC (Sistema Especial de Liquidação e Custódia). Pode-se dizer que essa taxa é o valor que o Governo
Federal paga para quem empresta dinheiro para o governo através dos títulos
públicos. Consequentemente é a referência para rendimento de aplicações
financeiras privadas e de outras taxas de juros do mercado. Teoricamente
nenhuma aplicação no âmbito nacional deveria pagar menos juros que os títulos
do governo pois o risco de crédito do Estado brasileiro supostamente é muito
menor do que qualquer instituição privada. Essa lógica vale para o mercado nacional,
mas nem tanto para o mercado internacional como veremos a seguir.
Hoje a Selic está no seu menor
patamar da história aos 2%. Em grosso modo significa que quem comprar os
títulos públicos do Brasil receberá 2% do seu capital ao ano em forma de juros.
Em 2016 a taxa esteve em 14,25% e desde então vem caindo.
Esse valor de 2% é considerado
muito baixo pois não considera a inflação, que nos últimos 12 meses foi de 4,56%[2],
por isso, dizer que o Brasil está pagando juros negativos não é uma obra de
ficção científica, mas já é uma realidade. Uma Selic baixa era o desejo de
longa data do mercado pois se torna um fomentador do crescimento nacional[3]
mas tem causado efeitos colaterais, como na taxa do dólar.
Enquanto no mercado nacional vemos
os títulos do governo brasileiro como sendo o ativo livre de risco por essência,
o investidor estrangeiro não enxerga dessa maneira. Para ajudar a precificar o
risco de investimentos em qualquer país do mundo se criou um mercado de seguros
contra calotes chamado de CDS (Credit Defaut Swap). Em outras palavras, um
investidor paga um prêmio para garantir que o investimento dele em determinado
país não será perdido em caso o Estado não pague o que lhe deve. Por conta
disso, esse prêmio passa a ser um indicador dos riscos de se aplicar em
determinado país. Quanto maior o valor do “seguro”, mais arriscado é comprar os
títulos desse país pois a chance de um calote é maior. A partir desse indicador
os investidores buscam as melhores oportunidades de investimento ao redor do
mundo. Hoje o CDS do Brasil está em 153 pontos enquanto outros países
emergentes como México e Rússia estão em 81 e 86[4]
respectivamente. Ou seja, segundo esse indicador a chance de o Brasil dar um
calote hoje é de 88% e 77% maior respectivamente que México e Rússia. Tenham
esse número em mente.
Agora é a hora de conectar essas
informações. Já sabemos que os juros no Brasil estão em 2% e que segundo o CDS,
é muito mais arriscado investir no Brasil do que nos outros dois países
emergentes. Mas qual será a taxa de juros do México e da Rússia? No início de
fevereiro de 21 o México abaixou para 4% enquanto a Rússia está em 4,25%. Resumindo
de uma forma bem simples, o investidor internacional que quer investir no
Brasil paga quase duas vezes mais caro por um seguro e compra um ativo que lhe
rende a metade do outros que estão ao seu alcance. Analisando somente por esse
ponto fica mais claro entender a dificuldade do Brasil em captar dólares no
mercado internacional e entende-se a fuga desse capital para outros países.
Esse tipo de investimento é chamado de Carry
Trade, onde o investidor aporta capita para lucrar com as taxas de juros
soberanas. Alguns especialistas dizem que essa forma de entrada de dólar é
meramente especulativa e, portanto, não é saudável para uma economia. Contudo,
o fato é que a ausência da entrada desse recurso e a saída em massa desses
dólares que estavam aqui antes implica diretamente no preço da moeda, jogando
para cima a cotação.
O Brasil tem um longo caminho
para reduzir o CDS e esse deveria ser o rumo da solução. O roteiro já é
conhecido, mas a aplicação é difícil e se traduz em reformas, como a tributária
e administrativa, privatizações, manutenção do teto dos gastos, etc... Contudo,
a taxa de juros no atual patamar também é disfuncional e deve começar a subir
em pouco tempo. Esse movimento de alta dos juros deve recolocar o dólar em um
patamar mais baixo dos atuais 5,40 mas para uma valorização maior do Real a
agenda acima deve ser alcançada.
[1] Para
alguns analistas a taxa de câmbio alta é benéfica, sobretudo para o Brasil que é
um grande exportador de commodities. Os produtos brasileiros ficam mais
atrativos no mercado internacional a medida que o real perde valor e isso é
interessante para os exportadores. Por outro lado, o dólar alto pressiona a
inflação e por isso está sendo considerado um vilão aqui.
[2] Informação
extraída do site https://www.ibge.gov.br/explica/inflacao.php
considerando os dados de janeiro 2020 a janeiro 2021.
[3]
Por exemplo, uma indústria que está visando aumentar seu parque produtivo agora
passa a ter acesso à empréstimos mais baratos e consegue financiar a compra de
novos equipamentos e maquinários, que por sua vez exigirá a contratação de mais
funcionários e assim por diante. Outro exemplo de como a taxa de juros em
patamares mais baixos incentiva a abertura de novos negócios pode ser observada
pelo fato de pessoas físicas e empresas terem que buscar alternativas de
rendimento melhores que os títulos do governo. A abertura de novos CNPJs se
mostra uma das opções escolhidas pelas pessoas físicas que tiram o dinheiro que
estava aplicado no banco e passam a buscar no empreendedorismo uma melhor fonte
de renda para seu dinheiro.
[4]
Informação extraída do site: http://www.worldgovernmentbonds.com/sovereign-cds/


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